terça-feira, 6 de outubro de 2015

Doce Por Defeito

O Rui chegou a casa do trabalho. Estava com dores de cabeça e tomou uns comprimidos. Percebeu que a Primavera estava em força naquele ano. A comichão no nariz não desaparecia, era oficial, sofria de alergias.
Raquel, sua namorada, estava a tomar duche. Sabia-o pois para além de ouvir a água a brotar do chuveiro, as meias de vidro bem como o resto da roupa, encontravam-se no chão à porta da casa de banho. Era uma mania que Raquel tinha, despir-se à porta da casa de banho e deixar tudo no chão.
Ao início Rui achou esta acção bizarra mas acabou por se habituar, afinal de contas as festas no cabelo pagavam claramente a desarrumação temporária da hora do banho.
O Rui estava a descansar no sofá quando é surpreendido por Raquel que lhe oferece uma caixa de cartão, muito pirosa mas fofinha. Tinha corações desenhados e continha no seu interior uma sombrinha de chocolate.
Sorridente, Raquel diz:
- Já não vem chuva, arrumei a roupa de Inverno e os guarda-chuvas no sótão. Como correu o teu dia?
Rui, ainda a despertar, respondeu:
- Obrigada amor, tornaste o meu dia mais doce.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Às de Copas

Estava esquecido numa gaveta poeirenta quando o Rogério me agarrou a mim e aos meus pares.
Viajei no bolso das calças, sentia os solavancos da viagem de carro. Não havia música e ainda não lhe ouvi a voz.
Quando me tirou do bolso estava numa casa quente com três crianças, um casal de meia idade e um velhote de bengala que mal se mexia. Havia muita comida e ouviam-se músicas de ritmo animado. Era Natal.
Fiquei em cima de uma mesa a ouvir as conversas e as histórias que se contavam. O Rogério não falava muito mas brincava fisicamente com as crianças. Gostei dele, 'É um tipo carinhoso.'- pensei, 'pena que não se dê a conhecer.'.
Após o jantar fui o seu trunfo, mal sabia que viria a ser a sua armadura.
Pegou em mim e nos meus pares. Baralhou-nos. Manuseava-me com muita destreza.
O meu papel era esconder-me entre os meus pares e surgir de forma a ser reconhecido pela plateia.
O Rogério fez de mim uma estrela, e eu dele.
Passou a noite a fazer truques de magia e a alegrar as crianças.
Quando regressei ao bolso das calças e mais tarde à gaveta poeirenta, fiquei triste mas guardei a esperança de um dia voltar a poder brilhar nas mãos do Rogério.

sábado, 29 de agosto de 2015

Ela arrumou o quarto

Ela não gosta de arrumar.
Seja o quarto, a casa, uma mala para uma viagem, ela detesta arrumar.
Odeia arrumar a roupa depois de lavada, tirar a loiça da máquina é um pesadelo.
Isto é no concreto.
Se ela pensar bem e por um momento não tiver medo de compartimentar, verá que com os seus pensamentos é igual. Tudo disperso, sem lugar.
Uma vez ela ouvio "somos definidos pelas nossas escolhas. Tu tens esperança porque não te lembras mas podes sempre escolher daqui para a frente e encontrares-te a ti própria" numa conversa de café com alguém que sofreu amnésia.
Fez-se um clique. Como por milagre os seus devaneios tornaram-se ordenados. Ela entrou em pânico.
O seu duende interno saltava e esperneava, raiva, rancor, zanga, medo, solidão, lágrimas.
Ela tinha de escapar, nada melhor do que bebedeiras de filmes acompanhados de bebedeiras de álcool, erva, comprimidos. Qualquer coisa servia para a tirar da realidade, até que se tornou aborrecido. Tudo lhe era previsível, até o final do filme que antes nunca vira. Ficou tão bêbeda em imagens que lhe doía a cabeça se pensasse em palavras.
Ela percebeu, de tanto filme ver e livro ler que tudo tem uma ordem, mesmo a história mais desconexa e o raciocínio mais ilusório. "Até o delírio tem ordem!" exclamou para si própria. A sua ordem era não se ordenar, não escolher. Abdicar deliberadamente da sua vontade com o medo que tinha em definir-se. Entrou em pânico mas acalmou-se ao pensar na conversa que ouvira no café.
Ela entendeu que vivia numa desordem no concreto porque se recusava a assumir o seu lugar, porque tinha medo de ser, de existir.
Ela deitou-se e chorou, muito. Deu-se a si própria um dia para só pensar "nisto". Ela tomou uma decisão. Após mais uma bebedeira de álcool para assentar as ideias, sem medo de enlouquecer aceitou que vive em casa dos pais e que isso não é uma sentença à sua identidade.

Ela mudou e arrumou o quarto.