Ela não gosta de arrumar.
Seja o quarto, a casa, uma mala para uma viagem, ela detesta arrumar.
Odeia arrumar a roupa depois de lavada, tirar a loiça da máquina é um pesadelo.
Isto é no concreto.
Se ela pensar bem e por um momento não tiver medo de compartimentar, verá que com os seus pensamentos é igual. Tudo disperso, sem lugar.
Uma vez ela ouvio "somos definidos pelas nossas escolhas. Tu tens esperança porque não te lembras mas podes sempre escolher daqui para a frente e encontrares-te a ti própria" numa conversa de café com alguém que sofreu amnésia.
Fez-se um clique. Como por milagre os seus devaneios tornaram-se ordenados. Ela entrou em pânico.
O seu duende interno saltava e esperneava, raiva, rancor, zanga, medo, solidão, lágrimas.
Ela tinha de escapar, nada melhor do que bebedeiras de filmes acompanhados de bebedeiras de álcool, erva, comprimidos. Qualquer coisa servia para a tirar da realidade, até que se tornou aborrecido. Tudo lhe era previsível, até o final do filme que antes nunca vira. Ficou tão bêbeda em imagens que lhe doía a cabeça se pensasse em palavras.
Ela percebeu, de tanto filme ver e livro ler que tudo tem uma ordem, mesmo a história mais desconexa e o raciocínio mais ilusório. "Até o delírio tem ordem!" exclamou para si própria. A sua ordem era não se ordenar, não escolher. Abdicar deliberadamente da sua vontade com o medo que tinha em definir-se. Entrou em pânico mas acalmou-se ao pensar na conversa que ouvira no café.
Ela entendeu que vivia numa desordem no concreto porque se recusava a assumir o seu lugar, porque tinha medo de ser, de existir.
Ela deitou-se e chorou, muito. Deu-se a si própria um dia para só pensar "nisto". Ela tomou uma decisão. Após mais uma bebedeira de álcool para assentar as ideias, sem medo de enlouquecer aceitou que vive em casa dos pais e que isso não é uma sentença à sua identidade.
Ela mudou e arrumou o quarto.
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