segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Às de Copas

Estava esquecido numa gaveta poeirenta quando o Rogério me agarrou a mim e aos meus pares.
Viajei no bolso das calças, sentia os solavancos da viagem de carro. Não havia música e ainda não lhe ouvi a voz.
Quando me tirou do bolso estava numa casa quente com três crianças, um casal de meia idade e um velhote de bengala que mal se mexia. Havia muita comida e ouviam-se músicas de ritmo animado. Era Natal.
Fiquei em cima de uma mesa a ouvir as conversas e as histórias que se contavam. O Rogério não falava muito mas brincava fisicamente com as crianças. Gostei dele, 'É um tipo carinhoso.'- pensei, 'pena que não se dê a conhecer.'.
Após o jantar fui o seu trunfo, mal sabia que viria a ser a sua armadura.
Pegou em mim e nos meus pares. Baralhou-nos. Manuseava-me com muita destreza.
O meu papel era esconder-me entre os meus pares e surgir de forma a ser reconhecido pela plateia.
O Rogério fez de mim uma estrela, e eu dele.
Passou a noite a fazer truques de magia e a alegrar as crianças.
Quando regressei ao bolso das calças e mais tarde à gaveta poeirenta, fiquei triste mas guardei a esperança de um dia voltar a poder brilhar nas mãos do Rogério.

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